Meu mundo esta dividido, como se houvesse uma linha invisível o cortando ao meio. Como se houvesse um botão de liga/desliga, em minha pele. Liga no mundo um, desliga e vai pro mundo dois. É incrível como o ser humano tem a capacidade de fugir dos seus medos, das suas dores, de si. Incrível mesmo é como eu tenho feito isso. Parece tudo um faz de conta.
Fazem quatro dias que eu venho tentando escrever, quatro dias que eu venho aqui e fecho a pagina automaticamente, pra não me deparar com a dor que eu escrevi. Quatro dias fugindo de palavras. Quatro dias fugindo de lembranças, de imagens que correm atrás de mim e sorriem. Eu as empurro pra debaixo do tapete, e finjo que não tem nada ali, só poeira. Dai eu aperto aquele botão. Desliga. E viajo pro mundo dois.
Naquele mundo, o dois, onde eu existo sem existir, não existe eu. Não existe um eu com um coração capotando por não saber pulsar, não existe um cérebro cansado demais que não para de pensar, não existe um corpo que sente nojo de viver. Não existe. É tudo faz de conta. Faz de conta que você é aquela pessoa, que você não tem um passado, só o presente, que você nasceu agora, e nada importa. Seus amores são perfeitos. Seu coração não dói, seu sorriso insiste em aparecer com tanta frequência e facilidade, que chega a assustar você.
Naquele mundo de faz de conta, só é preciso fazer de conta. De conta que o que você presenciou, não existiu, que ela não existiu. Faz de conta que o sol tem feito parte do seu dia, que o azul do céu nunca foi tão azul, faz de conta. Faz de conta que você gosta de dormir, e não tem medo de sonhar. Que seus olhos não choram, faz de conta que não existe dor, que não existe tristeza, faz de conta que você é forte e que esta seguindo em frente. Tudo bem, não chore, é só um faz de conta, você não precisa fazer. Mas faz de conta que a cova que você tem cavado, é pra enterrar seu passado. Seu passado vivo, que tem sussurrado toda noite: Estou aqui. E após dizer isso, ele sorri pra você.
Eu vou continuar fugindo. O tempo inteiro, exceto durante as noites, quando o sono toma meu corpo, e eu não tenho como escolher. Dai meu passado invade meus sonhos e brinca comigo, ele não brinca de faz de conta, tampouco brinca pra me fazer sorrir. Ele joga tudo em cima de mim, palavras, imagens, me faz lembrar de tudo que eu tenho me empenhado em esquecer. Mentira, eu não tenho me empenhado, eu só tenho me deslocado numa velocidade tao rápida e contraria a essas memorias, que elas acham que eu estou brincando de pega-pega. Desliga, desliga, desliga, desliga, desliga!!! Por favor, desliga. Eu preciso ir pro mundo dois.
Nenhum comentário:
Postar um comentário